Você ainda está tentando merecer amor sendo impecável?

Tem uma crença que muita gente carrega tão fundo que nem sabe que está lá. Ela não aparece escrita em nenhum lugar, nunca foi dita em voz alta, mas organiza boa parte das escolhas, dos comportamentos e do cansaço que você sente. Ela diz, mais ou menos, assim: se eu fizer tudo certo, vou merecer ser amada.

Se eu não errar, não decepcionar, não incomodar, não ocupar espaço demais, não precisar demais, então, finalmente, vou ser escolhida. Vou ser suficiente. Vou poder descansar.

Você se reconhece nisso?

Quando o perfeccionismo não é sobre desempenho

A maioria das pessoas associa perfeccionismo a trabalho, a entregas, a medo de errar numa apresentação ou num projeto. Mas existe um perfeccionismo muito mais silencioso e muito mais doloroso: o emocional.

É aquele que te faz revisar uma mensagem dez vezes antes de mandar para não parecer carente. Que te faz engolir um incômodo para não ser “difícil”. Que te faz estar sempre disponível para não decepcionar. Que te faz cuidar de todo mundo ao redor com uma atenção que você raramente dirige a si mesma.

Esse perfeccionismo não quer um trabalho impecável. Quer uma versão de você que seja impossível de rejeitar. Que não dê trabalho. Que não assuste. Que não pese. Uma versão que, finalmente, seja amada sem condicional.

De onde vem essa fantasia

Ela não aparece do nada. Em algum momento da vida, geralmente cedo, você aprendeu que amor tinha condição. Não porque alguém disse isso em palavras, mas porque foi o que você sentiu na prática.

Talvez o afeto em casa fosse mais generoso quando você se comportava bem e mais escasso quando você errava ou precisava de algo. Talvez você tenha aprendido que existia um volume de necessidade que era aceitável e, além dele, você virava problema. Talvez alguém importante tenha ido embora e a conclusão que você tirou, com a lógica de quem ainda era criança, foi: se eu tivesse feito diferente, ele ficaria.

A criança não tem como saber que o adulto ao redor tinha suas próprias limitações, suas próprias feridas, e que a partida ou o distanciamento não tinha nada a ver com ela. Então ela assume a responsabilidade. E começa a se corrigir. A se ajustar. A tentar merecer.

E essa criança cresceu. Mas a estratégia ficou.

O problema é que nunca chega o suficiente

Essa é a parte mais cruel dessa dinâmica: ela não tem fim. Não existe uma versão de você impecável o suficiente para garantir que nunca vai ser rejeitada, que nunca vai decepcionar, que nunca vai perder alguém.

Então você vai ajustando a régua. Quando faz tudo certo e ainda assim algo dá errado, a conclusão não é “talvez isso não dependa de mim”. A conclusão é “preciso fazer mais”. Ser mais. Errar menos. Precisar menos ainda.

E vai ficando menor. Mais controlada. Mais cansada. Cada vez mais distante de si mesma e cada vez mais parecida com aquilo que você imagina que os outros querem que você seja.

Em algum ponto, você para de saber o que quer de verdade, porque faz tanto tempo que você priorizou o que os outros precisam que sua própria voz ficou baixa demais para ouvir.

Amor que exige impecabilidade não é amor seguro

Preciso dizer isso com clareza, sem suavizar: se você só consegue se sentir amada quando está performando uma versão ideal de si mesma, o que você está recebendo não é amor. É aprovação condicional. E aprovação condicional não alimenta. Ela mantém você funcionando no modo de conseguir mais aprovação.

Amor de verdade, o que sustenta, não precisa que você seja perfeita. Ele existe quando você está cansada, quando você erra, quando você precisa, quando você decepciona alguém sem querer e ainda assim continua sendo vista e escolhida.

Você não precisa merecer isso. Você merece só por existir. Mas sei que essa frase pode soar vazia se a sua história inteira te ensinou o contrário. Por isso não estou pedindo que você simplesmente acredite nisso agora. Estou pedindo que você comece a questionar a crença antiga.

Primeiros movimentos para sair desse ciclo

  • Identifique quando você está agindo por medo de desapontar, não por vontade real. A pergunta é simples: estou fazendo isso porque quero ou porque tenho medo do que acontece se eu não fizer? A resposta honesta já revela muita coisa.
  • Deixe algo pequeno ser imperfeito e observe o que acontece. Não responda uma mensagem na hora. Diga que não para um pedido sem dar explicação elaborada. Expresse um incômodo que normalmente engoleria. Veja se o mundo desmorona. Na maioria das vezes, não desmorona.
  • Preste atenção em como você trata seus próprios erros. Você se corrige com a mesma gentileza que ofereceria a uma amiga? Ou a voz interna é dura, impaciente, sempre apontando o que faltou? Essa voz tem história. E pode ser reescrita.
  • Questione as relações onde você só se sente segura quando está agradando. Não para abandoná-las imediatamente, mas para ver com clareza o que está sustentando esse vínculo e o que ele te custa.
  • Considere terapia. Esse padrão tem raiz profunda e costuma precisar de um espaço seguro para ser desfeito com cuidado. Não é fraqueza pedir ajuda para isso. É exatamente o oposto.

Você não precisa se tornar outra pessoa para ser amada

Essa versão de você que erra, que precisa, que não sabe tudo, que às vezes decepciona, que tem dias ruins e medos antigos, ela não é o obstáculo para ser amada. Ela é a pessoa real que existe por baixo de toda a performance.

E é exatamente essa pessoa que merece ser vista.

Cansar de tentar ser impecável não é desistir. É, talvez, a primeira vez que você decide parar de se esconder atrás de uma versão editada de si mesma e ver o que acontece quando você simplesmente aparece como é.

Pode ser assustador. Mas é o único caminho para um amor que não te esgota.

Isso tocou em alguma coisa sua? Me conta nos comentários. Às vezes só nomear já alivia um pouco do peso.

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