A Vegetariana: o que acontece quando uma mulher decide parar de obedecer o próprio corpo

Yeong-hye era, nas palavras do próprio marido, uma mulher completamente comum. Sem graça especial, sem ambição, sem traços marcantes. Ele a escolheu exatamente por isso. E então, uma manhã, ela acorda de um sonho que não consegue descrever direito, vai à geladeira e joga fora toda a carne da casa. Sem explicação. Sem negociação. Sem pedir permissão. É esse gesto silencioso e absoluto que desencadeia tudo em A Vegetariana, de Han Kang. E desde a primeira página eu soube que esse livro não era sobre comida.

A história, para quem ainda não leu

O livro é dividido em três partes, cada uma narrada por uma perspectiva diferente: o marido, o cunhado e a irmã de Yeong-hye. Ela mesma nunca narra. A gente a vê sempre pelos olhos de quem não a entende, de quem quer que ela volte a ser o que era, de quem se sente ameaçado pela mudança que ela encarna.

Na primeira parte, o marido narra com irritação crescente a recusa de Yeong-hye de comer carne. O que começa como uma escolha alimentar vai revelando algo muito mais profundo: uma mulher que está, lentamente, deixando de cumprir todos os papéis que lhe foram atribuídos. Esposa, filha obediente, corpo disponível. A família reage com violência, vergonha e tentativas de controle. Yeong-hye não recua.

Na segunda parte, o cunhado, artista visual, desenvolve uma obsessão por Yeong-hye depois de descobrir que ela tem uma marca de nascença em forma de flor no quadril. Ele a transforma em objeto de arte, literalmente pintando flores no corpo dela. A cena é perturbadora exatamente porque o desejo dele parece misturado com algo que ele chama de admiração.

Na terceira parte, a irmã mais velha, In-hye, é quem resta. É ela que cuida de Yeong-hye enquanto ela se desfaz, se recusa a comer qualquer coisa, e passa a acreditar que está se transformando em planta. E é In-hye quem carrega a pergunta mais pesada do livro: o que acontece com as mulheres que não entram em colapso, que seguem cumprindo tudo, que nunca param?

O que Han Kang estava realmente escrevendo

Han Kang é sul-coreana, e o livro foi publicado originalmente em 2007. A Coreia do Sul tem uma das culturas de pressão social mais intensas do mundo, especialmente sobre mulheres: expectativas rígidas de comportamento, submissão familiar, corpo como território público. Mas Han Kang não escreve um ensaio sobre isso. Ela constrói uma imagem, e deixa a imagem trabalhar.

Yeong-hye não explica o que está fazendo. Ela não tem um manifesto. Ela simplesmente para. Para de comer carne. Para de suportar o toque do marido. Para de cumprir as expectativas. E o mundo ao redor entra em colapso porque uma mulher que para de obedecer sem dar explicações é tratada como doente.

O que o livro pergunta, sem nunca responder diretamente, é: ela está adoecendo ou está acordando? E por que as duas coisas parecem tão parecidas?

O corpo como campo de batalha

Uma das coisas que mais me afetou nessa leitura foi perceber o quanto o corpo de Yeong-hye é tratado, por todo mundo ao redor, como algo que pertence a eles. O marido tem direito ao corpo dela. O pai tem autoridade sobre o que ela coloca na boca. O cunhado transforma esse corpo em tela. A medicina quer devolver esse corpo à função.

Yeong-hye não grita. Ela não briga. Ela só para de colaborar. E isso é suficiente para que todos a tratem como louca.

Eu pensei muito, lendo esse livro, em quantas mulheres conheço que aprenderam a habitar o próprio corpo como se ele fosse um serviço prestado aos outros. Que comem de um jeito porque alguém aprova. Que se vestem de um jeito porque alguém olha. Que suportam toque porque recusar seria inconveniente. O corpo de Yeong-hye é um espelho muito desconfortável.

Talvez você conheça esse lugar. A sensação de que seu corpo existe em função do olhar, do desejo ou da aprovação de alguém. Que cuidar de si mesma com autonomia real, sem pedir licença, parece um ato quase radical. Não é fraqueza ter aprendido isso. É o resultado de anos de mensagens muito consistentes sobre o que um corpo de mulher deve ser e para quem ele deve existir.

O que você pode levar dessa leitura

A Vegetariana não tem respostas fáceis nem finais reconfortantes. Mas ela deixa perguntas que ficam:

  • Você toma decisões sobre o próprio corpo sem precisar justificar para ninguém? Ou sente que cada escolha precisa ser aprovada, explicada, defendida?
  • Quantos papéis você cumpre no piloto automático porque simplesmente nunca parou para perguntar se quer? Não como julgamento, mas como pergunta honesta.
  • O que você chama de estabilidade pode ser contenção? In-hye é a irmã que funciona, que aguenta, que não entra em colapso. Mas Han Kang não apresenta isso como saúde.
  • Quando foi a última vez que você fez algo pelo seu corpo que não fosse para agradar, impressionar ou cumprir uma expectativa? Comer o que queria, descansar sem culpa, dizer não ao toque sem se desculpar.

Vale a leitura?

Sim, mas com consciência de que esse livro não vai te deixar confortável em nenhum momento. Han Kang escreve com uma beleza que dói. As imagens são densas, às vezes perturbadoras, e o ritmo é lento de um jeito que parece intencional: ela quer que você fique dentro de cada cena tempo suficiente para sentir o peso dela.

Não é uma leitura leve. Mas é uma leitura necessária, especialmente para quem já sentiu que existir com autonomia real é um ato que o mundo ao redor trata como problema.

Yeong-hye queria ser uma planta. Queria parar de precisar de carne, de toque, de expectativa. Queria só luz e silêncio. Tem algo de muito triste nisso, e também algo de muito compreensível. Quando o mundo humano ao redor é esse, o desejo de virar planta faz todo o sentido.

Você já leu A Vegetariana? Ou tem algum livro que te fez sentir que sua experiência finalmente tinha nome? Me conta nos comentários, quero muito saber.

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