O Alienista: quando o problema é a loucura ou quem decide o que é loucura?

Tem uma cena em O Alienista que eu não consigo tirar da cabeça. O doutor Simão Bacamarte, o médico protagonista, vai internando cada vez mais pessoas na Casa Verde, seu hospício particular em Itaguaí. No começo são os “claramente loucos”. Depois vão sendo os excêntricos, os rebeldes, os que choram demais, os que riem na hora errada. Até que boa parte da cidade está internada e ele segue convicto de estar fazendo ciência. Essa imagem, de um homem absolutamente certo de si destruindo a vida de quem discorda dele, não é ficção histórica. É um espelho com data de fabricação de 1882 que ainda reflete muito bem o presente.

A história, para quem ainda não leu

Publicado originalmente em 1882 na Gazeta de Notícias, O Alienista é uma novela curta de Machado de Assis que acompanha o doutor Simão Bacamarte, o maior médico do Brasil e de Portugal segundo o próprio narrador, cheio de ironia desde a primeira linha. Bacamarte retorna da Europa, casa-se por critérios científicos com uma mulher que considera geneticamente superior, e funda a Casa Verde, o primeiro hospício da região.

O problema é que os critérios de internação vão mudando conforme a teoria do médico evolui. Primeiro ele interna os loucos óbvios. Depois percebe que a loucura pode ser sutil, e começa a internar os que têm “desequilíbrio das faculdades mentais”. A cidade vai esvaziando. Há uma revolta popular. Bacamarte não cede. E quando finalmente revê sua teoria, a virada é ainda mais perturbadora do que o leitor espera.

O que Machado estava realmente dizendo

Machado de Assis era um homem que observava o Brasil com uma lucidez desconfortável. Filho de um mulato e uma lavadeira portuguesa, epiléptico, gago, negro num país ainda escravocrata, ele sabia muito bem o que significa ser classificado como inadequado por quem detém o poder de nomear.

O Alienista é uma sátira feroz ao positivismo científico do século XIX, a crença de que a ciência poderia medir, classificar e corrigir tudo, inclusive o ser humano. Bacamarte não é um vilão pantomímico. Ele é algo pior: um homem de boa-fé que usa o prestígio da ciência para exercer controle absoluto, e que nunca, em momento algum, considera que o problema pode estar nele.

Essa é a facada do livro. Não é a maldade que destrói as pessoas ao redor de Bacamarte. É a certeza.

Quem decide o que é loucura?

Essa pergunta atravessa o livro do início ao fim, e ela é muito mais atual do que parece. Ao longo da história, sociedades inteiras já classificaram como loucura ou doença coisas que hoje reconhecemos como variações humanas normais. Homossexualidade era diagnóstico médico. Mulheres que discordavam dos maridos eram internadas por “histeria”. Pessoas negras que fugiam da escravidão receberam o diagnóstico inventado de “drapetomania”, uma suposta doença mental que causava o desejo de ser livre.

Machado não precisa dizer nada disso explicitamente. Ele constrói Bacamarte com tanto cuidado, tão cheio de lógica interna, que o leitor percebe sozinho: o perigo não está no louco. Está em quem tem poder suficiente para decidir quem é louco.

E isso ressoa em contextos muito cotidianos. Na família que chama de “exagero” o sofrimento de alguém que está pedindo ajuda. No ambiente de trabalho que rotula de “difícil” quem tem limites. Na relação em que um dos dois sempre convence o outro de que está reagindo errado, sentindo errado, sendo errado.

Você já foi a Casa Verde de alguém?

Tem uma experiência que muita gente conhece, mas nem sempre consegue nomear: estar perto de alguém que tem uma habilidade muito particular de fazer você duvidar da própria percepção. Você sente que algo está errado, fala, e de alguma forma sai da conversa achando que o problema era sua sensibilidade. Você reage a algo que te machucou e ouve que está exagerando. Com o tempo, você para de confiar no que sente.

Bacamarte não grita. Não agride. Ele simplesmente tem a caneta, o diagnóstico e a autoridade. E isso é suficiente.

Talvez você tenha crescido numa família com um Bacamarte. Alguém que definia o que era normal, o que era exagero, o que podia ser sentido e o que precisava ser contido. Não é fraqueza ter internalizado essa voz. É o resultado previsível de anos ouvindo que sua percepção da realidade precisava de correção.

O que você pode levar dessa leitura

O Alienista não tem manual de autoajuda no final. Mas ele deixa perguntas que valem sentar com elas:

  • Você confia na sua própria percepção? Quando algo te machuca, você consegue reconhecer isso antes de checar se os outros validam o que você sentiu?
  • Tem alguém na sua vida que sempre tem a explicação do por que você está errado? Não uma pessoa que discorda de vez em quando. Uma que sistematicamente reposiciona você como o problema.
  • Você já usou certeza como forma de controle? Bacamarte não é só uma figura externa. Às vezes a gente internaliza esse papel e passa a ser rígido consigo mesmo da mesma forma.
  • O que você classifica como “loucura” nos outros pode ser só diferença? Jeitos de sentir, de reagir, de existir que não cabem no seu modelo, mas que não precisam de correção.

Vale a leitura?

Muito. E tem a vantagem de ser curtíssimo, algo em torno de cinquenta páginas dependendo da edição, então não tem desculpa de falta de tempo.

Mas aviso: Machado de Assis não é um escritor gentil. Ele é preciso, irônico e implacável. Ele não vai te confortar. Ele vai te fazer rir e logo depois perceber que o riso ficou preso na garganta porque a piada era sobre algo real.

O Alienista é um livro sobre poder, sobre ciência usada como controle, sobre a violência de quem nunca levanta a voz mas sempre tem razão. E é, talvez, um dos textos mais úteis para entender certas dinâmicas relacionais que a gente passa anos sem conseguir nomear.

No fim do livro, Bacamarte toma uma decisão sobre si mesmo que é ao mesmo tempo a mais lógica e a mais triste de todas. Não vou contar. Mas quando você chegar lá, vai entender por que esse homem é um dos personagens mais perturbadores da literatura brasileira.

Você já leu O Alienista? Ou já teve um Bacamarte na sua vida, alguém que sempre soube melhor do que você o que você estava sentindo? Me conta nos comentários.

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