Amar a mãe que você tem, não a que você queria ter

Tem uma data no calendário que, para muita gente, não chega com flor. Chega com um peso no peito difícil de nomear. Uma mistura de saudade de algo que nunca existiu, de culpa por não sentir o que acha que deveria sentir, de tristeza por uma relação que é complicada demais para caber num cartão.

Se você está lendo isso e reconhece esse peso, esse texto é para você.

A mãe que a gente sonhou ter

Desde cedo a gente aprende como uma mãe deveria ser. Os livros, os filmes, as histórias dos outros. A mãe que escuta, que acolhe, que aparece. A mãe que sabe o que você precisa antes mesmo de você saber. A mãe que diz a coisa certa na hora certa.

Essa imagem vai se construindo dentro da gente, às vezes sem que a gente perceba. E quando a mãe real não cabe nessa imagem, quando ela é fria, ou ausente, ou difícil, ou presente de um jeito que machuca mais do que acolhe, cria-se um espaço doloroso entre o que você esperava e o que você tem.

Esse espaço não é frescura. Não é ingratidão. É o lugar onde mora um luto que poucas pessoas entendem, porque é luto por algo que nunca existiu.

Relacionamentos maternos difíceis têm muitas formas

Não existe um único jeito de ter uma relação complicada com a mãe. Tem quem cresceu com uma mãe que amava, mas que não sabia demonstrar. Tem quem teve uma mãe que estava fisicamente presente, mas emocionalmente ausente. Tem quem viveu com críticas constantes, com controle disfarçado de cuidado, com amor que vinha junto de culpa.

Tem quem perdeu a mãe cedo e carrega a dor de uma relação que ficou incompleta. Tem quem ainda tem a mãe viva, mas sente uma distância que não sabe como atravessar. Tem quem cortou o contato por necessidade e convive com a ambiguidade de sentir alívio e dor ao mesmo tempo.

Todas essas experiências são reais. E nenhuma delas precisa ser justificada para ser legítima.

O luto pelo que não foi

Existe um tipo de luto que não tem nome nos dicionários. É o luto pela mãe que você queria ter tido. Pelo colo que não veio quando precisava. Pela conversa que nunca aconteceu. Pelo jeito que você precisava ser visto e não foi.

Esse luto é real, mesmo quando a pessoa está viva. E ele aparece com força em datas como essa, quando o mundo inteiro está falando de amor materno como se fosse simples, como se fosse universal, como se todo mundo soubesse exatamente o que celebrar.

Deixar esse luto existir, sem tentar apressar ou esconder, é uma forma de respeitar a sua própria experiência. Você não precisa fingir que está bem com o que não está bem. Você não precisa forçar uma gratidão que não sente. E você não precisa sentir culpa por ter sentimentos complexos sobre uma relação que é, de fato, complexa.

Os seus sentimentos são válidos

Se você sente raiva, isso não te faz uma pessoa ruim. Se você sente tristeza, isso não te faz fraca. Se você sente as duas coisas ao mesmo tempo, com amor misturado no meio, isso também faz sentido. Sentimentos sobre a relação com a mãe raramente são simples, e tentar encaixá-los numa categoria limpa só gera mais confusão.

Talvez você tenha aprendido cedo que não podia sentir determinadas coisas em relação à sua mãe. Que reclamar era ingratidão. Que ter raiva era errado. Que a obrigação de amar precisava vir antes de qualquer coisa que você estivesse sentindo de verdade.

Mas amor real não é obrigação. E honrar a sua experiência não significa deixar de amar. Significa se permitir ser honesta sobre o que foi e o que é.

Como atravessar essa data com mais leveza

Não tem jeito de fazer essa data desaparecer. Mas tem formas de atravessá-la sem precisar fingir o que não sente:

  • Você não precisa performar. Se não sente vontade de entrar nas comemorações coletivas, você não precisa. Cuidar de você nessa data é tão legítimo quanto qualquer outra coisa.
  • Dê nome ao que está sentindo, sem julgamento. Raiva, tristeza, saudade de algo que nunca existiu, alívio. Qualquer coisa que você estiver sentindo, tente nomear sem transformar em acusação a si mesma.
  • Pense em quem exerceu cuidado materno na sua vida. Pode não ter sido a sua mãe biológica. Pode ter sido uma avó, uma tia, uma amiga mais velha, uma professora. Vínculos de cuidado aparecem em formas que nem sempre têm nome de parentesco.
  • Se a relação ainda existe e é difícil, você não precisa forçar intimidade. Uma ligação rápida, uma mensagem curta, um encontro com hora para terminar. Você pode honrar o vínculo sem se machucar.
  • Considere conversar com alguém de confiança. Essa é uma dor que fica mais pesada quando carregada sozinha. Um terapeuta, um amigo próximo. Falar às vezes dissolve um pouco do que estava comprimido.

Amar a mãe que você tem, não a que você queria ter, não é resignação. É um dos atos mais maduros e dolorosos que existem. É olhar para o que é real, com toda a ambiguidade que carrega, e decidir seguir em frente sem negar o que foi.

Se essa data é difícil para você, você não está sozinha. E isso já importa mais do que qualquer coisa que eu poderia escrever aqui. Me conta nos comentários como você atravessa esse dia. Às vezes só saber que existe companhia nessa dor já faz diferença.

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